23.03.2020

COVID-19 e animais de companhia: O papel do médico veterinário frente a essa pandemia

Em termos de suscetibilidade às doenças infecciosas, a melhor forma de compreensão sobre a imunidade nos animais é justamente a sua variação entre as espécies, ou seja, a forma pela qual eles respondem frente a essas doenças. Como exemplo, podemos observar essa diferença entre os animais de produção e os animais de companhia; bovinos, equinos e suínos são resistentes à infecção pelo vírus da família Paramyxoviridae (causador da cinomose em cães) altamente patogênico para cães. Por outro lado, o Parvovírus felino (causador da panleucopenia felina) causa infecção em várias espécies de felídeos, mas não afeta bovinos e algumas outras espécies que se mostram resistentes. Esse fato é determinado geneticamente e pela incompatibilidade biológica entre as espécies, que resulta na resistência ou suscetibilidade entre elas e o agente infeccioso. Nas infecções causadas por vírus, essa resistência pode ser explicada pela ausência de determinadas moléculas receptoras necessárias para que o agente infeccioso tenha acesso à célula do hospedeiro.

Os coronavírus (CoV) pertencem a uma família de vírus de RNA (ácido nucléico), e são assim denominados por sua partícula viral constituída de proteínas em forma de “coroa” em volta do seu envelope lipídico. As infecções por coronavírus são comuns em seres humanos e animais. Algumas cepas apresentam-se zoonóticas, outras não. Portanto, em seres humanos o CoV pode provocar doenças que vão desde um resfriado comum até doenças graves, como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio causada pelo MERS-CoV e a Síndrome Respiratória Aguda Grave causada pelo SARS-CoV que está acometendo pessoas em várias partes do mundo, com a doença denominada COVID-19.

O SARS-CoV assim como o SARS-CoV- 2 pertencem a família coronaviridae, gênero Betacoronavirus e causam a doença nos seres humanos conhecida como COVID 19. Por outro lado, o CCoV e FCoV pertencem a família coronaviridae gênero Alphacoronavírus, determinando gastroenterite e peritonite Infecciosa em cães e gatos respectivamente, não transmissíveis ao ser humano. As investigações sobre a transmissão dessas doenças para humanos, especialmente o SARS-CoV foi inicialmente por civetas ( Paradoxurus hermaphroditus), animais silvestres que são reservatórios do vírus. Os pangolins malaios (Manis javanica) importados ilegalmente na província de Guangdong (China) contém coronavírus semelhantes ao SARS-CoV-2, embora o vírus do morcego RaTG13 permaneça o mais próximo do mesmo no genoma1.

Diante da emergência global envolvendo a saúde pública, é importante direcionar estudos que abordem sobre as origens dessa pandemia que envolve a maioria dos países no mundo e tentar compreender com mais detalhes como um vírus animal ultrapassou os limites da espécie para infectar seres humanos com tanta rapidez e produtividade; esse pensamento pode auxiliar na prevenção de futuros eventos reemergentes zoonóticos ou não. De qualquer forma, se a adaptação viral ocorreu em seres humanos, mesmo que tenha características de transferências zoonóticas repetidas, não há comprovação de que evoluam sem mutações. Assim, o entendimento da função viral da SARS-CoV-2, resulta da identificação de outros vírus aparentados em animais.

A COVID-19 é, portanto, é causada pelo CoV também referido como “o vírus COVID-19” ou SARS-CoV-2 (nome científico) ou ainda referido como “o vírus responsável pelo COVID-19. Estudos recentes direcionados ao genoma viral vem demonstrando de forma mais fidedigna as características genômicas e em parte a infecciosidade e transmissibilidade da SARS-CoV-2 em seres humanos. Esses estudos confirmam a importância de se obter mais informações genéticas a respeito do sequenciamento viral em animais, no sentido de se conhecer as origens do vírus e descartar suposições de manipulação do mesmo em laboratórios. Uma vez que não se conhecem ainda os mecanismos exatos pelos quais o SARS-CoV-2 tenha se originado (seleção natural), a vigilância em seres humanos com quadro clínico de pneumonia é muito relevante.

Segundo a World Organization for Animal Health (OIE) e Animal Health Europe (AHE) a monitorização da situação do COVID-19 e seus possíveis impactos na Medicina Veterinária, assim como os questionamentos sobre o posicionamento dos tutores com seus animais de companhia devem ser rigorosamente vistos com clareza, responsabilidade e conhecimento técnico-científico. As atualizações sobre a pandemia da doença e a atuação dos médicos veterinários intercalados entre cuidar dos animais e orientar os tutores, são feitas periodicamente nos sites dos referidos órgãos, os quais confirmam a informação de que a propagação do COVID-19 é de humano para humano (www.animalhealtheurope.eu/covid-19/information).

Considerando que os animais de estimação são membros da família e todos os tutores desejam mantê-los saudáveis e seguros, a monitorização e assistência médica veterinária permanente vem trazer mais tranquilidade aos proprietários no cenário atual frente à expectativa social globalizada em relação à COVID-19. A necessidade do isolamento das pessoas em virtude da crescente propagação da doença vem de encontro à maior proximidade do tutor com seus pets e os benefícios que estes certamente trarão, como apoio psicológico a todos, companhia, afeto, aproximação maior com as crianças e idosos, corroborando com apoio moral e lúdico, reforçando mais ainda a necessidade de mantê-los saudáveis dentro da família.

De acordo com a OIE, as precauções sobre animais vivos ou produtos de origem animal devem ser tomadas com base nas orientações de prevenção à propagação do vírus, como medidas gerais de higiene pessoal e desinfecções locais. Como já referido, não há evidências de que animais de companhia possam transmitir o vírus, portanto, não há justificativa para comprometer seu bem-estar. As medidas preventivas a serem tomadas quando companheiros ou animais de estimação têm contato com humanos doentes ou suspeitos de COVID-19 são principalmente limitar o contato até que se tenha maiores informações sobre o vírus.

Sobre os serviços veterinários e animais de companhia, tanto a OIE quanto a AHE e OMS orientam que os serviços públicos e privados devem trabalhar juntos, utilizando as abordagens “One Health” compartilhadas quando houver casos de pessoas doentes que tiveram contato com animais. Na ocorrência de situação de risco, e a decisão a ser tomada for de testar o animal, recomenda-se o teste RT-PCR para testes nasal, oral e fecal. Sendo o animal positivo para COVID-19, o mesmo deve ser mantido afastado de outros animais não expostos. A detecção do COVID-19 em animais atende aos critérios de notificação à OIE, de acordo com o código de Saúde Animal Terrestre da OIE, como doença emergente.

Os últimos estudos sobre um possível tratamento para seres humanos, publicado na revista Nature ( www.nature.com/articles/s41421-020-0156-0) mostra a eficácia de duas drogas, a cloroquina e Hidroxicloroquina, na inibição in vitro da infecção por SARS-CoV-2. Os autores justificam a importância de se utilizar um tratamento urgente para controle da doença que tem ocorrência mundial, como pandemia, matando milhares de pessoas. O estudo no entanto encontra-se ainda em andamento, embora já tenha sido utilizado o medicamento em pacientes hospitalizados.

Testes com outras drogas como Remdesivir (GS-6734) e fosfato de cloroquina (CQ) inibiram com eficácia a infecção por SARS-CoV-2 em laboratório. Ensaio de fase III utilizando Remdesivir (um fármaco análogo de nucleotídeos) foi utilizado como medicamento experimental. No entanto, devido ao grande numero de pacientes, o CQ parece ser o mais promissor para uso em larga escala devido sua maior disponibilidade, registro de segurança e baixo custo. O que se espera é que os testes com essas drogas possam ter resultados comprovados em ensaios clínicos com seres humanos e possam ser produzidos em breve, visto que uma vacina pode ainda demorar meses paras ser desenvolvida.

Referências:
1.Felsburg PJ, Somberg RL, Perryman LE. Domestic animal models of severe combined immunodeficiency: canine X-linked severe combinned immunodeficiency and sever combined and immunodeficiency in horses. Immunodefic Ver 1992;3;277-303.

2 Https://www.animalhealtheurope.eu/Covid-19/Atualizações. E www.oie.int, atualizado em 13 march 2010 Acesso em 20/03/2020.

3. Liu et al. (2020). Hydroxichloroquine, a less toxic derivate of chloroquine, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. https://doi.org/10.1038/s41421-020-0156-0 . Acesso em 20/03/2020.

4. www.cienciaquenosfazemos.org. A origem do Coronavirus-Covid-19. A ciência derruba ateorias conspiratórias: é a
seleção natural. Acesso em 21/03/2010, 23 horas.

5. Https://www.veterinariaatual.pt. APMVEAC divulga Toolkit informativo sobre Covid-19. Atualizações e recomendação para médicos veterinários. Acesso em 19/03/2020. 23 horas.

6. Https://www.oie.com/Covid-19, in G1.globo.com/coronavírus. Coronavírus e pets. Recomendações.Acesso em 22/02/2020.

Lucilandia Maria Bezerra 
Médica Veterinária
Pós-graduada em Clínica Médica e Cirúrgica de Peq. Animais 
Mestre em Ciências do Ambiente 
Doutora em Ciência Animal